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Diálogos Possíveis

DIÁLOGOS POSSÍVEIS

Dialogar com Fernando Pessoa implica entrar na consciência aguda da sua própria existência, tão dramaticamente vivida ao assumir as variadas máscaras que o habitam.

É precisamente este jogo de colocar e de tirar a máscara que permite ao poeta entrar em diálogo consigo mesmo e com os outros “eus” que nele coabitam, mas também, muitas vezes, com a própria sociedade “organizada e vestida” que ele descarta por lhe coartar a liberdade, ao impedi-lo de ser quem é. Daí a necessidade dos silêncios. Silêncio de si para consigo, para com os outros e para com a vida feita de desencontros. Não é por acaso que, em muitos dos seus versos, ressoa, como um gemido, essa urgência do silêncio, que mais não é do que uma outra forma de diálogo, tão necessária ao processo de criação poética.

Para conhecer Pessoa, nada melhor do que conhecer a sua poesia. É ela a chave que abre todas as portas do enigma que envolve a figura do poeta; é ela “o fio de Ariadne” que o ajuda a regressar a si mesmo, na incessante procura de um caminho percorrido com verdade, com a sua verdade. A sua poesia fala por si, pois é a palavra que permite desenhar o retrato do poeta, muito mais do que a sua biografia. Os seus versos ajudam-nos a decifrar o enigma da inquietante pluralidade que nos conduz ao conhecimento da pessoa que esteve sempre por detrás da(s) máscara(s). É a sua consciência reflexiva que o desinstala na relação com mundo exterior e o condena a uma solidão obstinada, mas dolorosamente consciente. Quando lemos Pessoa, lemos a sua solidão interior, a inquietação perante o enigma do ser e a angústia existencial. São estes os fatores que entram na construção de um diálogo interior que se concretiza na explosão dos seus heterónimos.

O encontro do leitor com Fernando Pessoa é sempre uma surpresa, uma descoberta inesquecível, que configurará, inevitavelmente, a sua relação com a poesia. Os “diálogos possíveis” com uma obra desta natureza são inesgotáveis, como inesgotável foi a sua imaginação, na tentativa de se encontrar e de superar o drama da despersonalização que o atormentava.

Contudo, não podemos deixar de reconhecer que a genialidade de Pessoa advém precisamente do fenómeno heteronímico e da forma como assumiu as várias personalidades que o habitaram.

Com o objetivo de consolidar e alargar o conhecimento da obra pessoana, foi solicitado aos alunos do 12.º ano que “desafiassem” Fernando Pessoa para se abrir em “diálogos possíveis” com os seus heterónimos ou outras pessoas que contribuíssem para a divulgação da sua multifacetada obra.

A professora de Português, Madalena Toscano

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